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sexta-feira, setembro 07, 2007

CANTORES ANGOLANOS -BONGA

.
Sabiam que BONGA foi um dos
maiores atletas que represen-
taram Portugal nos 110 e 400 m
barreiras nos anos 60.
Nessa época ele chamava-se
BARCELÓ CARVALHO e representa-
va o BENFICA.


Hoje ele é angolano e dos
melhores cantores angolanos
de sempre



Bonga Kwenda, conhecido por Bonga, é um cantor e escritor de letras de música angolano.

Biografia
Barceló de Carvalho nasce a 5 de Setembro de 1942, em Kipiri, na província do Bengo, a norte de Luanda, em Angola. Filho de Pedro Moreira de Carvalho, natural de Luanda, e de Ana Raquel, do norte de Angola. Barceló é o terceiro filho de uma família composta por mais nove irmãos.

A família tratava-o carinhosamente por Zeca. A sua infância foi passada em bairros como os Coqueiros, Imgombotas, Bairro Operário, Rangel, e no Marçal. Aí vive-se um ambiente intimista de perservação das músicas e tradições angolanas, marginalizadas pela dominação colonialista presente na época. O folclore dos musseques (bairros pobres) cedo fascinou o pequeno Zeca e por isso começou a frequentar e a participar das turmas dos bairros típicos de Angola, onde iniciou a sua actividade musical. Foi no bairro do Marçal que fundou o grupo "Kissueia". Barceló faz parte de uma geração de jovens lutadores de famílias humildes e resistentes, que resolve criar o seu próprio estilo musical, afirmando a especificidade da cultura angolana, numa época muito conturbada.

Pode-se dizer que o respeito e a admiração pela música, dança, provérbios e vivência tradicional das gentes começa ainda na infância. Barceló não mais abondonará o interesse pela música tradicional e pela cultura suburbana enquanto divulgação dos usos e costumes da linguagem e cultura angolana. Todavia o seu talento musical só se revelará um pouco mais tarde.

Bonga é produto de uma geração aguerrida e marginalizada que resiste à aculturação da sociedade marginal através do respeito pela música tradicional de Angola. A cultura angolana era dominada pela colonização portuguesa de então, daí que tanto a língua como a música tradicional fossem descriminadas e impedidas de se manifestar em plenitude. A música era para Bonga uma forma de lutar sem armas, era uma forma de resistência cultural.

O DESPORTO COMO PONTE PARA PORTUGAL
Barceló sempre se sentiu atraído pelo atletismo. Tudo começou ainda muito jovem quando revelou perante os seus amigos do bairro ser o mais rápido nas corridas e nas fugas. Depois começou oficialmente a correr no S. Paulo do Bairro Operário, rotulado pejurativamente como o "club dos pretos". Aí revelou o seu talento e nacionalismo, ingressando no Clube Atlético de Luanda, clube bem conceituado na época.

Em 1966, com 23 anos de idade, depois de ter alcançado os maiores títulos de Angola em 100, 200, e 400m, a sua entrada em Portugal dá-se aquando de um convite do Sport Lisboa e Benfica, que se deveu às suas múltiplas victórias nos campeonatos em Angola. O objetivo deste convite é a prática semi-profissional de atletismo. É entre 1966 e 1972 que Barceló de Carvalho atinge por sete vezes o estatuto de campeão e permanente recordista de ateletismo: onze internacionalizações nos 400 metros, nos 200 e 400 metros na taça da Europa de 1967, nove nos 4 x 400 metros e seis nos 200 metros, além de várias vitórias em torneios, tal como o grande prémio de Viseu em 1968 (400 metros), o Torneio Toddy em 1969 (100 metros), o II Grande Prémio das Festas de Santo António, etc...

A adaptação não é fácil e Barceló encontra alguma compensação emocional na comunidade angolana e africana a residir em Portugal e nas suas recordações e sons da memória. Nando V. Dias, Teta Lando, Rui Mingas, Eusébio, Velho Custódio, o Santana, o Cabrinha, o Vasconcelos, e tantos outros que são os companheiros desta vivência, cujo resultado é um amor profundamente exercitado pelas suas gentes e raízes bem como uma forte sintonia com a tradição angolana.

ACTIVISMO POLÍTICO E INTERNACIONALIZAÇÃO
Vivem-se tempos de acesso nacionalismo. África pretende alcançar o seu lugar no mundo livre e afirmar a sua consciência e identidade cultural. Barceló é já um nacionalista convicto. Portugal era então regido pela política repressiva e fascista de Salazar e Caetano. Com o início dos movimentos a favor da independência das ex-colónias portuguesas, Bonga usa a sua liberdade de movimentos proporcionada pelo seu estatuto de atleta recordista para passar mensagens entre compatriotas que lutam pela independência em Angola. Por este motivo é obrigado a fugir de Portugal para a Holanda, uma vez que começa a ter problemas com a polícia do Estado-Novo, a Pide. O exílio é a solução.

Em 1972, na Holanda lança o seu primeiro álbum "Angola 72", onde canta a revolução e o amor á pátria. É por esta altura que Barceló se reveste de uma nova angolanidade e passa a chamar-se Bonga Kuenda. Adopta um nome africano que significa "aquele que vê, aquele que está à frente e em constante movimento".

Bonga está consciente de que a cultura e a música africana ainda não é respeitada enquanto tal no mundo dos europeus, ditos civilizados. É esse o fundamento de uma consciência da necessidade da independência, da libertação, do povo e da pátria. Bonga torna-se assim a voz e o rosto da angolanidade no mundo. Os anos 70 são os tempos da arte-combate, onde estão espelhadas nobres e profundas convicções e aspirações a favor das ex-colónias portuguesas e contra o colonianismo. "Angola 72" está por esta altura proibido em Portugal e Angola, pela sua ressonância política e consciência crítica.

Bonga actua pela primeira vez nos Estados Unidos em 1973, aquando da celebração da independência da Guiné-Bissau, integrado num espectáculo de homenagem à cultura lusófona. Eis que surge a Dipanda (independência) em Angola e com ela Bonga atinge o estatuto simbólico de embaixador da música angolana. Dá-se o 25 de Abril e Bonga lança "Angola 74". Em África as independências sucedem-se. Bonga está em Paris e por esta altura regista no consulado português em França o seu nome artístico, Bonga Kuenda.

Os anos 80 são tempos de apogeu internacional, comercial e cultural. Os êxitos sucedem-se: é o primeiro artista africano a actuar a solo, dois dias consecutivos no Coliseu dos Recreios, símbolo da música portuguesa, é o primeiro africano Disco de Ouro e de Platina em Portugal. O seu sucesso estende-se para lá das fronteiras lusófonas e Bonga actua no Apolo em Harlem, no S.O.B. de Nova Iorque; no Olympia de Paris, na Suíça, no Canadá, nas Antilhas e em Macau. O seu sucesso é resultado de um trabalho árduo, intensivo e metódico e de uma imaginação criativa que caracteriza toda a sua carreira.

Em 1988, Bonga regressa a Portugal, dezassete anos depois de ter fugido clandestinamente. Bonga regressa não como recordista do atletismo, mas como recordista de vendas e popularidade, que canta música de intervenção, revolucionaria e carismática. Um dos motivos pelos quais Bonga não regressa definitivamente a Angola é porque a independência pós-colonial desintegrou-se em corrupção, tirania e guerra. Assim sendo, Bonga manteve uma aguda consciência crítica relativamente aos líderes políticos de ambas as partes. A sua música é um esforço constante em legitimar a cultura africana enquanto identidade cultural autónoma e por isso o seu processo criativo, longe de revelar um mero exotismo, afirma uma consciência libertadora, uma teoria profunda que pretende difundir a cultura angolana no mundo.


A MARCA "BONGA"
Bonga cria uma genial fusão entre a sua pessoa e a música de Angola, tornando-as indissociáveis e tendo como maior estandarte, o Semba, um ritmo tradicional angolano correspondente ao samba brasileiro, mas percursor deste.

Bonga também interpretou géneros musicais cabo-verdianos, sendo responsável pela adulteração da coladeira “Sodade” para uma morna, 18 anos antes de Cesária Évora a tornar mundialmente famosa.

A sua música consegue ser tanto mordaz e incisiva como terna e nostálgica. Bonga tem sabido manter a coerência e a qualidade musical em mais de 30 anos de carreira e vivendo fora do seu país. Daí que o artista afirme parafraseando Fernando Pessoa: "a minha pátria é a música angolana".

Bonga tem recebido inúmeros prémios de popularidade e homenagens relativamente à sua obra, onde conta com distinções varias, medalhas e discos de ouro e de platina, entradas nos podiuns de desporto e nos Tops musicais mais representativos, bom como participações ao lado dos mais ilustres músicos e eventos musicais internacionais. Bonga tem manifestado inúmeras vezes a sua solidariedade e altuismo dando concertos de benificência para instituições como a MRAR, a Amnistia International, FAO, ONU, UNICEF e também este concerto que se realizará no C.C.F. a 31 de Janeiro, reverterá a favor da acção missionária dos Capuchinhos em Angola. Para além disso tem participado em CD's como por exemplo "Em Português Vos Amamos" dedicado a limor, "Paz em Angola" ou ainda "Todos Diferentes, Todos Iguais", um marco importante da luta contra o racismo.

Com mais de 300 composições da sua autoria, 32 álbuns, 6 video-clips, 7 bandas sonoras de filmes, e álbuns com inúmeras reedições em todo mundo, revela um percurso exemplar.

Os seus temas têm sido interpretados por ilustres artistas como no Brasil Martinho da Vila, Alcione e Elsa Soares, em França, Mimi Lorca, no Zaire, Bovic Bondo Gala, no Uruguai, Heltor Numa de Morais, e grande parte dos artistas angolanos da nova vaga, etc...

Bonga, com mais de trinta anos de carreira, é recordista de vendas dos seus 32 álbuns, em todo o mundo, convidado para inúmeros espetáculos que contribuem para a imagem positiva do seu país. A consciência crítica, a luta pela paz, o carisma e o talento fazem deste compositor e intérprete, o mais controverso mas também um dos mais queridos filhos de África.

Bonga é incontestavelmente uma referência obrigatória e uma peça nuclear da cultura africana, criando através da sua obra musical o melhor cartão de visita, além fronteiras, da música angolana e caboverdeano.

Um comentário:

José Clemente disse...

Barceló de Carvalho já pertencia à pequena burguesia de Luanda. O resta são tretas para "pioneiro" escutar